A chegada do mês de julho era um grande acontecimento no imaginário das crianças naquela época.
Nas escolas os preparativos da festa junina iniciava-se desde junho. Mas pra mim, era uma festa mágica que poderia acontecer todos os finais de semana que eu viveria as mesmas emoções!
No meu bairro então, os sons eram misturados entre todos os vinte e poucos blocos que faziam parte daquele "conjunto", chamados de "os blocos".
Um certo junho estava sendo formado os casais de crianças para a quadrilha da escola.
Nossa, meu coração disparava, e eu ficava imaginando com que vestido de chita dançaria naquele ano.
Mas, justo naquele ano, o vestidinho de mini florzinhas vermelhas num fundo branco e amarelo mesclado clarinho. Com shortinho fofinho branco de elástico nas coxas. A meia calça branca, o sapatinho de boneca, as trancinhas com laços de fita vermelha, o chapeuzinho de palha delicadamente decorado com margaridinhas amarelas e brancas, e finalmente as maravilhosas pintinhas no rosto feitas de lápis preto e um leve rouche da vovó dando destaque para as bochechas avermelhadas, não aconteceriam.
A única forma de participar daquela festa que me fazia tão feliz, foi, vestir-me de menino. Bastaria uma calça com dois remendos de um retalho qualquer. Uma camisa quadriculada emprestada de um de meus irmãos, um chapáu de palha simples, e duas costeletas falsas e um bigode feitos com carvão, e voalá! Eu dançaria a quadrilha!
Foi essa escolha que tive que fazer naquele ano.
Ah, faltou o lenço vermelho com um nó no pescoço. O mesmo nó na garganta que me fez engolir o choro, levantar a cabeça e ser o par mais divertido de uma amiga de classe. As mãoszinhas para trás na hora da dança. A tirada do chapéu em reverencia a pequena dama, e a diversão estava feita! Dei muitas gargalhadas! Fiz da dificuldade uma enovação, e me senti o mais belo dos minis cavalheiros. O mais bonito, o mais divertido, e sem dúvida, o mais gentil.
Anarriê!!!
