O horizonte era apenas um quadro pra mim. Uma ilusão.
Não me imaginava além do que via. Mas pensava como estariam as crianças "escolhidas".
Meu mundo era pequeno como eu. Um mundo onde crianças iam e vinham.
Mas existia uma garotinha; Maria. Aliás, mais uma Maria como tantas outras Marias no orfanato. Mas essa era diferente. Tinha sonhos, e inventava histórias fascinantes do seu mundo colorido.
Um mundo de sorrisos, amores, abraços, afetos e todas as coisas boas que ela podia imaginar. Um mundo diferente a cada dia. Ora pequeno e aconchegante como a casa que ela viveria. Ora imenso como o amor que lhe dariam.
No mundo imaginário de Maria não existiam dores, perdas. Nada disso. Era um mundo perfeito.
Maria era uma menina franzina. Tinha problemas no coração. Era grande demais. Tão grande quanto o amor que sentia por tudo e todos. Mas isso a tornava frágil e muitas vezes era hospitalizada.
Os dias eram estranhos sem ela.
Ao entardecer nos deixavam ver o sol que caía por trás da montanha. E era assim que todos nós ouvíamos as histórias da pequena Maria.
Ela dizia. - Um dia meus pais virão me buscar. E além daquela montanha vou ver para onde se esconde o sol.
Para Maria, o sol era um ser mágico. Tinha o poder de curá-la.
Todas as manhãs acordávamos com o sorriso e a voz de Maria dizendo: Bom dia meu amigo sol! O encantamento que ela tinha por ele era surpreendente!
Dizia que quando nasceu o dia estava nublado. Que alguém teria escondido o sol, e por isso que seu coração "dava defeito". Mas que o sol a curaria.
Ela contava histórias lindas e inimagináveis. Como por exemplo que pegaria carona nas asas de uma gaivota e voaria até o sol. Falava que o sol era dourado porque o chão era feito de purpurinas. E que num lugar bem especial, dentro dele, havia um coração novinho pra ela. Um coração pequeno que coubesse dentro do peito.
Mas Maria nunca teria um coração pequeno. Não caberia nele todo amor que ela tinha por todos e por tudo.
Mas dias nublados sem chuva a faziam ficar pensativa. Pra ela, naquele momento mais bebês "com defeito" nasceriam, e isso era triste demais!
Me lembro que uma vez ela contou pra gente que acordou durante a noite com um brilho lindo na janela. Levantou e viu que era a lua.
Saiu para o quintal e o chão estava todo prateado. E pequenos vaga-lumes voavam formando desenhos no ar.
Girassóis, cavalos, borboletas, cachos de uvas. E a lua foi se aproximando, se aproximando até que Maria conseguiu tocá-la. E quando a tocou sentiu frio. E sentiu que a lua chorava.
Maria tentou abraçá-la, mas a lua era grande demais!
Disse que adormeceu nos braços da lua depois que choraram juntas.
Depois que Maria nos contou essa história. A primeira história triste. Tentei entender o significado de tudo que Maria falava. Mas era tudo muito lúdico pra mim que não acreditava nesse amor que ela pregava.
Maria vivia num mundo de fantasias!
O espaço que tínhamos para brincar era bem grande. Éramos livres de uma certa forma.
Havia um balanço em uma das árvores que todos gostávamos de brincar. E Maria era a quem mais se divertia. Pedia para balançar bem alto até ela alcançar o sol.
Lembro de Maria com carinho. Foi a lembrança dela que me fez estudar e trabalhar.
Hoje sou psicólogo. Atendo crianças.
E muitas vezes quando estou só no meu consultório vejo a imagem dela. Ouço até a voz dando bom dia ou contando suas histórias.
E a imagem que mais me marcou, foi quando Maria adoeceu e muito fraca sentava no balanço ficava quietinha esperando o sol aparecer naqueles dias nublados.
O coraçãozinho dela não aguentou.
Todas as vezes que vejo o sol. Não quando simplesmente olho. Quando o vejo de verdade. Posso imaginar Maria brincando com as purpurinas douradas e correndo feliz porque enfim soube onde o sol se escondia.
By Mirian Borges
